Começa sem aviso. O coração dispara, falta ar, as mãos formigam, uma sensação de que algo terrível está prestes a acontecer toma conta — e vem a certeza absoluta de que você está morrendo ou enlouquecendo.
Dez minutos depois, passou. O exame no pronto-socorro não aponta nada. E fica a pergunta que ninguém responde direito: o que foi aquilo?
A síndrome do pânico (transtorno do pânico, CID-10 F41.0; CID-11 6B01) é a repetição de ataques de pânico inesperados — descargas súbitas de medo intenso que atingem o auge em poucos minutos — somada ao medo persistente de que voltem. Os sintomas mais comuns da crise:
- Coração disparado, palpitações
- Falta de ar ou sensação de sufocamento
- Dor ou aperto no peito
- Tontura, suor, tremores, formigamento nas mãos e na boca
- Sensação de irrealidade e medo de morrer ou de enlouquecer
A crise costuma ceder em 20 a 30 minutos. Cerca de 1,7% dos adultos desenvolvem o transtorno ao longo da vida, segundo os inquéritos de saúde mental da OMS em 25 países (2016). Não é imaginação, não é fraqueza — e tem acompanhamento eficaz. Dor no peito pela primeira vez? Procure emergência ou ligue para o SAMU (192).
- O que é a síndrome do pânico
- Os 13 sintomas do ataque de pânico
- Quanto tempo dura uma crise de pânico
- Crise de pânico ou infarto: como diferenciar
- Ataque de pânico não é o mesmo que síndrome do pânico
- Por que acontece: causas e fatores de risco
- O que fazer durante uma crise
- O medo do medo: como a vida vai encolhendo
- Quando procurar avaliação psiquiátrica
- Como funciona o acompanhamento
- Perguntas frequentes
O que é a síndrome do pânico
Síndrome do pânico é o nome popular do transtorno do pânico, um transtorno de ansiedade definido por ataques de pânico recorrentes e inesperados, seguidos de pelo menos um mês de preocupação persistente com novas crises ou de mudança significativa de comportamento por causa delas. Na classificação usada em atestados e laudos no Brasil, a CID-10, o código é F41.0; na CID-11 da OMS, 6B01.
Não é raro. O maior levantamento sobre o tema, com quase 143 mil adultos de 25 países nos inquéritos de saúde mental da OMS, estimou que 1,7% das pessoas desenvolvem o transtorno ao longo da vida, com idade mediana de início aos 32 anos (de Jonge e colaboradores, 2016). Na região metropolitana de São Paulo, 1,1% dos adultos tiveram o quadro ativo nos doze meses anteriores à pesquisa, e 56,6% desses casos foram classificados como graves (Andrade e colaboradores, 2012).
O transtorno do pânico raramente aparece sozinho. É comum que venha acompanhado de agorafobia, de outros transtornos de ansiedade ou de depressão; quando, além das crises, há desânimo e perda de interesse, vale ler o artigo sobre depressão e ansiedade juntas.
Os 13 sintomas do ataque de pânico
O DSM-5-TR lista treze sintomas. Para caracterizar um ataque de pânico são necessários quatro ou mais, surgindo de forma abrupta e atingindo o pico em poucos minutos.
Repare quantos são físicos. Isso não é coincidência: o ataque de pânico é uma resposta de alarme do organismo disparada fora de hora. O corpo se prepara para uma ameaça que não existe, e a pessoa sente cada etapa dessa preparação.
Sintomas iniciais: como a síndrome costuma começar
Muita gente não reconhece o quadro no começo porque os primeiros sinais parecem problemas de outra natureza. Os mais relatados no consultório:
- Uma primeira crise marcante, muitas vezes numa fase de estresse, privação de sono ou após uma perda — e a lembrança vívida de onde ela aconteceu.
- Atenção redobrada ao corpo: checar o pulso, notar cada batida diferente, estranhar uma tontura leve.
- Idas ao pronto-socorro ou ao cardiologista com exames normais.
- Crises noturnas, que acordam a pessoa com o coração disparado, sem pesadelo que as explique.
- Pequenas evitações: parar de dirigir na estrada, preferir não ficar sozinho, sentar perto da porta.
Quanto tempo dura uma crise de pânico
A resposta curta: o pico chega em poucos minutos — em geral em até dez — e a crise costuma ceder entre 20 e 30 minutos. Raramente passa de uma hora. Parece muito mais, porque quem está dentro dela perde a noção do tempo.
Três detalhes ajudam a entender a duração:
- O rescaldo é mais longo que a crise. Cansaço, tremor residual, sensação de "ressaca" e apreensão podem durar horas depois que o pico passou.
- "Crise de horas" costuma ser uma sequência de ondas. Quando a pessoa relata pânico a tarde inteira, em geral houve picos sucessivos ou uma ansiedade alta contínua entre eles. O mecanismo do ataque isolado não se sustenta por tanto tempo.
- O que foge do padrão merece avaliação. Sintomas que não aliviam, pioram progressivamente ou vêm com desmaio, fraqueza de um lado do corpo ou dor que se espalha exigem atendimento médico imediato — não devem ser atribuídos ao pânico.
Já a síndrome, sem acompanhamento, tende a ter curso prolongado, com fases melhores e piores. É por isso que esperar as crises "sumirem sozinhas" raramente funciona: enquanto isso, a evitação vai se instalando.
Crise de pânico ou infarto: como diferenciar
Dor no peito, falta de ar, formigamento no braço, suor frio e medo de morrer. A sobreposição com um evento cardíaco é tão grande que o pronto-socorro costuma ser a primeira porta de entrada de quem tem o primeiro ataque.
Procurar atendimento de emergência na primeira crise é a conduta correta. Ninguém deve presumir que dor no peito é psicológica sem avaliação. Algumas diferenças, porém, ajudam a orientar:
- Curva temporal. O ataque de pânico atinge o auge em cerca de 10 minutos e costuma ceder em 20 a 30. A dor cardíaca tende a ser mais constante ou progressiva.
- Tipo de dor. No pânico é mais frequente uma dor em pontada, localizada, que muda com a respiração. Na origem cardíaca, costuma ser aperto ou peso difuso.
- Relação com esforço. A dor cardíaca costuma piorar com esforço físico, mas o infarto também acontece em repouso — e em mulheres, idosos e pessoas com diabetes a dor pode ser atípica ou até ausente. Por isso nenhuma dessas pistas serve para descartar infarto em casa: na dúvida, ligue para o SAMU (192).
- Formigamento simétrico. Dormência nas duas mãos e ao redor da boca é típica da hiperventilação, não de evento cardíaco.
Na dúvida, procure emergência ou ligue para o SAMU (192). Nenhuma lista substitui avaliação médica presencial — sobretudo acima dos 40 anos, com pressão alta, diabetes, tabagismo ou histórico familiar de doença cardíaca. O custo de investigar uma crise de pânico como se fosse cardíaca é baixo; o de ignorar um evento cardíaco achando que é ansiedade pode ser irreversível.
Ataque de pânico não é o mesmo que síndrome do pânico
Essa distinção muda o diagnóstico e o encaminhamento, e quase sempre passa despercebida.
Um ataque de pânico isolado é relativamente comum, geralmente em contexto de estresse agudo, privação de sono ou exaustão. Um ataque não configura transtorno.
Os números vêm dos inquéritos de saúde mental da OMS em 25 países (de Jonge e colaboradores, Depression and Anxiety, 2016). Eles mostram também que dois terços de quem teve um ataque tiveram mais de um — e que ataques repetidos, mesmo sem fechar o diagnóstico, se associaram a maior risco de outros quadros de saúde mental depois. Ou seja: não é preciso "ter síndrome" para que as crises mereçam atenção.
A síndrome do pânico se instala quando dois elementos se somam:
Por que acontece: causas e fatores de risco
Não existe uma causa única. O que se sabe é que o transtorno nasce do encontro entre um sistema de alarme mais sensível e um ciclo de interpretação que o realimenta.
- Circuitos do medo. Estruturas cerebrais como a amígdala, que detectam ameaça e disparam a reação de luta ou fuga, parecem reagir com mais facilidade a sinais do próprio corpo.
- Histórico familiar. Ter parentes próximos com transtorno do pânico ou outros quadros de ansiedade aumenta o risco.
- Fases de estresse intenso. Perdas, separações, sobrecarga no trabalho e privação de sono costumam anteceder a primeira crise.
- Estimulantes. Excesso de cafeína, energéticos e outras substâncias estimulantes podem precipitar crises em quem já é vulnerável.
- Leitura catastrófica das sensações. Um coração acelerado vira "vou ter um infarto"; uma tontura vira "vou desmaiar". O medo acelera ainda mais o corpo, e o ciclo se fecha.
Esse último ponto é central: é justamente o que a psicoterapia trabalha, e é por isso que o quadro responde bem ao acompanhamento. A síndrome também aparece com frequência junto de outros quadros — a depressão é um dos mais comuns — e é diferente da ansiedade generalizada, em que a preocupação é contínua e não vem em crises. Para uma visão geral dos tipos de ansiedade, veja o artigo sobre transtorno de ansiedade.
O que fazer durante uma crise
Nada interrompe um ataque de pânico instantaneamente — e prometer isso seria desonesto. O que se pode fazer é não alimentar o ciclo e atravessar a crise com menos sofrimento.
O que ajuda
- Prolongue a expiração. Inspire pelo nariz contando até quatro e solte o ar pela boca contando até seis. A hiperventilação piora o formigamento e a tontura; alongar a saída de ar reverte esse mecanismo.
- Nomeie o que está acontecendo. Dizer para si mesmo "isto é um ataque de pânico, vai atingir o pico e passar" reduz o componente de catástrofe.
- Ancore-se no ambiente. Identifique cinco coisas que você vê, quatro que ouve, três que toca. Deslocar a atenção do corpo para fora interrompe a checagem interna.
- Fique onde está, se for seguro. Sair correndo do local ensina o cérebro que aquele lugar era perigoso — é assim que a evitação começa.
- Aceite a duração. A crise tem curva própria. Tentar interrompê-la à força costuma aumentar a intensidade.
O que atrapalha
- Respirar rápido e fundo, achando que falta ar. Na crise, o ar não falta: respirar depressa demais elimina gás carbônico em excesso, e é isso que causa formigamento e tontura.
- Medir a pulsação repetidamente. Cada checagem confirma o alarme e realimenta o ciclo.
- Buscar emergência a cada crise depois de o quadro já estar investigado e esclarecido.
- Usar álcool para conter a crise. Alivia por minutos e agrava a ansiedade nas horas seguintes.
Se a crise é de alguém perto de você
- Fale devagar e com frases curtas. Diga que você está ali e que a crise vai passar.
- Respire junto, em voz alta, com a expiração mais longa que a inspiração.
- Evite "calma, não é nada" — a pessoa sente que é muito. Prefira "eu sei que está forte, vai baixar".
- Se for a primeira crise, se houver dor no peito com fatores de risco cardíaco ou se algo parecer diferente do habitual, ligue para o SAMU (192).
O medo do medo: como a vida vai encolhendo
A complicação mais frequente do transtorno do pânico é a agorafobia — e ela raramente é reconhecida a tempo, porque se instala devagar.
Não se trata apenas de medo de lugares abertos, como o senso comum sugere. É o medo de estar em situações das quais seria difícil sair ou receber ajuda caso uma crise aconteça: metrô, engarrafamento, fila, avião, elevador, cinema, ficar sozinho em casa.
O padrão costuma ser progressivo. Primeiro a pessoa evita o metrô. Depois passa a ir só acompanhada. Depois evita sair no horário de pico. Em alguns meses, o raio de deslocamento se reduziu drasticamente — e cada evitação bem-sucedida reforça a crença de que o lugar era mesmo perigoso.
Quanto mais cedo se interrompe esse ciclo, menor o esforço para reverter. Um quadro identificado nos primeiros meses costuma responder mais rápido do que um que já reorganizou a rotina inteira em torno da evitação.
Quando procurar avaliação psiquiátrica
A primeira crise pede avaliação médica para afastar causas clínicas. Depois disso, qualquer um destes sinais indica que é hora de uma avaliação psiquiátrica:
Vale registrar um ponto sobre tempo: quadros de ansiedade costumam levar anos entre o início dos sintomas e a primeira avaliação especializada. Esse intervalo não é neutro — é nele que a evitação se estrutura.
Se houver pensamentos de morte ou de se machucar, procure ajuda imediatamente: CVV pelo 188 (24 horas, gratuito) ou SAMU pelo 192.
Como funciona o acompanhamento
No pânico, o primeiro passo é confirmar que as crises não têm origem clínica. Arritmias, alterações de tireoide, anemia, uso de estimulantes e abstinência de álcool podem provocar episódios parecidos, e os exames feitos no pronto-socorro nem sempre cobrem todas essas hipóteses. Quando há indicação, a investigação é completada.
Em seguida vem o desenho das crises: com que frequência acontecem, onde e em que horário, o que a pessoa faz ao sentir o primeiro sinal e o que deixou de fazer desde então. Esse levantamento mostra quanto a agorafobia já avançou e se existe depressão associada. O plano de cuidado sai daí, definido em consulta e construído junto com o paciente.
A psicoterapia tem papel central no transtorno do pânico. A Terapia Cognitivo-Comportamental é a abordagem com melhor evidência, porque trabalha a leitura catastrófica das sensações do corpo e o enfrentamento gradual das situações evitadas.
Se o deslocamento for parte do problema — e no pânico com agorafobia costuma ser —, a consulta de psiquiatria online remove essa barreira logo na primeira etapa. É possível ser avaliado de casa, sem enfrentar o trajeto que hoje causa medo.
Perguntas frequentes
Ataque de pânico pode matar?
Em geral, não. Apesar da sensação intensa de morte iminente, o ataque de pânico não costuma causar dano ao coração em pessoas sem doença cardíaca e não provoca asfixia. Os sintomas são reais e desconfortáveis, mas correspondem a uma resposta de alarme do organismo disparada sem ameaça correspondente. Isso não dispensa a avaliação médica na primeira crise.
Quanto tempo dura uma crise de pânico?
O ataque atinge o pico em poucos minutos — em geral em até 10 — e costuma ceder entre 20 e 30 minutos. A sensação de cansaço e apreensão pode durar horas depois. Crises que se prolongam por muito mais tempo merecem reavaliação, pois podem indicar outro quadro.
Qual é o CID da síndrome do pânico?
Na CID-10, ainda usada em atestados e laudos no Brasil, o transtorno do pânico é o código F41.0 (ansiedade paroxística episódica). Na CID-11, em vigor na OMS desde 2022, o código é 6B01. O código só é atribuído após avaliação clínica — ter tido um ataque isolado não basta para o diagnóstico.
Qual a diferença entre ataque de pânico e síndrome do pânico?
O ataque é o episódio isolado, relativamente comum em situações de estresse agudo. A síndrome exige ataques recorrentes e inesperados somados a pelo menos um mês de preocupação persistente com novas crises ou mudança de comportamento para evitá-las. Um ataque não configura transtorno.
Síndrome do pânico tem cura?
É um dos quadros de ansiedade com melhor resposta ao acompanhamento estruturado. A maioria das pessoas alcança remissão das crises e recupera as atividades que havia abandonado. Quanto mais cedo se interrompe o ciclo de evitação, mais rápida costuma ser a resposta.
Preciso ir ao pronto-socorro toda vez que tiver uma crise?
Na primeira crise, sim — dor no peito e falta de ar exigem avaliação presencial para descartar causa cardíaca. Depois que a investigação clínica foi feita e o quadro esclarecido, idas repetidas à emergência tendem a reforçar o ciclo de alarme em vez de aliviá-lo.
Posso tratar síndrome do pânico com psiquiatra online?
Sim. A teleconsulta psiquiátrica é regulamentada pela Resolução CFM 2.314/2022 e tem eficácia equivalente à presencial para avaliação e acompanhamento do transtorno do pânico. Para quem desenvolveu medo de deslocamento, o formato online remove justamente a barreira que dificultaria buscar ajuda.
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A recorrência é o que separa um episódio isolado de um transtorno — e quanto antes se interrompe o ciclo, menor o esforço. Consulta online por videochamada, para todo o Brasil.
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- DSM-5-TR — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5.ª ed. revisada. American Psychiatric Association, 2022.
- Salum GA, Blaya C, Manfro GG. Transtorno do pânico. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 2009;31(2):86. doi:10.1590/S0101-81082009000200002. SciELO (acesso em 03/10/2026).
- de Jonge P, Roest AM, Lim CC et al. Cross-national epidemiology of panic disorder and panic attacks in the World Mental Health Surveys. Depression and Anxiety, 2016;33(12):1155-1177. PubMed (acesso em 25/09/2026).
- Andrade LH, Wang YP, Andreoni S et al. Mental disorders in megacities: findings from the São Paulo Megacity Mental Health Survey, Brazil. PLoS ONE, 2012;7(2):e31879. PMC (acesso em 25/09/2026).
- Organização Mundial da Saúde. CID-11 — Classificação Internacional de Doenças, 11.ª revisão, código 6B01 (transtorno do pânico). icd.who.int (acesso em 25/09/2026).
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.314/2022 — regulamentação da telemedicina no Brasil.